Friday, April 17, 2015

Íris

   
   Sempre que reabro o velho portão de metal, ela está lá para me receber. Chicoteia-me as pernas com a sua cauda e lambe-me os joelhos numa euforia que só os amigos reconhecem. Já não me agacho para a abraçar como outrora mas sinto ainda o conforto da sua presença.
   Juntas, atravessamos o corredor, sombrio e triste como só os corredores por onde já ninguém passa sabem ser. E um arrepio eriça-me os pelos do pescoço.
   Subimos as escadas até ao terraço. Ai, sigo sozinha. Pulo o pequeno muro caiado de branco e heis que domino o mundo. Acolá um gato dorme sobre as velhas telhas. Uma ninhada recente começa a aventurar-se pelos ramos da figueira que tombaram e ficaram amparados pelo telhado. Inclino-me um pouco sobre o telhado, não consigo ver, trepo e agarro a antena da televisão. Começas então a ladrar, quase em pânico. Já não sou uma criança, eu sei o que estou a fazer. Projecto o pensamento enquanto piso com cautela as telhas apodrecidas. É um mundo em extinção, aquele que avisto. Em meu redor, os prédios altos vão vencendo a batalha. Entristeço-me.
   É nos momentos de pesar e profunda tristeza que sinto falta do conforto do teu pelo, do bafo húmido e quente mas sobretudo do teu olhar meigo que compreendia a mais complexa das filosofias. Compreendes ainda. Porque trago comigo todos os mortos que me criaram.
   Trago comigo a Dona Mealha, sempre com um lenço na cabeça, e o seu marido que me dava amendoins. A vizinha Maria que me pedia ajuda para descascar favas e que morreu muito nova com uma doença má. Trago comigo a avó Ana, que por não ser minha avó, era quem me deixava beber café de chaleira antes da sesta. Trago também a vizinha Rosa, baixinha e de voz rouca, o vizinho Zé que coleccionava isqueiros, a vizinha Maris ’zé que foi sempre muito gorda e me ensinou a jogar à Bisca e a fazer ponto-de-cruz.
   Mas a tua partida minha amiga deixou uma ferida que ainda hoje sangra. É que tu eras a minha menina e eu era a tua menina e eramos felizes num mundo ilusório de criança. E a tua doença e a tua morte física quebraram em mim a ilusão de que seriamos para sempre. E ainda hoje choro por ti quando me lembro do que não fiz por ter medo de te ver a partir.
   É por isso que tu continuas lá, dormindo na velha cozinha, enfiando o focinho dentro do charco para roubar a comida dos cágados, bebendo água pelo regador e partilhando a tua comida com os gatos vadios. E quem me disser que não estás lá, que não estás já em lugar nenhum, é porque não sabe já ser criança e acreditar que o melhor do mundo é sempre para sempre. 

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